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Genética forense – O uso de amostras biológicas na solução de crimes (e outros mistérios)

Da cena do crime ao exame de paternidade, entenda a importância das amostras não-convencionais

Você já deve ter visto em filmes ou séries de TV todo o cuidado e empenho das equipes de investigação criminal em conseguir amostras biológicas na cena do crime, com o intuito de identificar tanto o criminoso como as vítimas e outros possíveis envolvidos no ocorrido. Esse aspecto do trabalho dos investigadores compõe o que chamamos de genética forense, o ramo da genética que se propõe a trabalhar na resolução de crimes.  

Este trabalho é possibilitado pelas tecnologias de análise e sequenciamento genético, que passaram por grandes avanços na segunda metade do século XX e hoje são parte fundamental da investigação de crimes no mundo inteiro. Na maior parte do Brasil, este trabalho fica a cargo das Polícias Científicas, que normalmente contam com laboratórios próprios e especializados em genética e outras ciências forenses.

A ciência em nome da lei

Desde que o ser humano se organiza em sociedade acontecem crimes, como furtos e homicídios. Por muito tempo foi impossível dizer com certeza quem havia cometido o crime, a menos que houvesse testemunhas ou flagrantes. Neste contexto, o apontamento de culpados acabava ficando por conta de juris compostos por sacerdotes ou anciãos, que nem sempre eram de fato imparciais e assertivos.

Porém, ao longo da história, sempre houve aspirantes a Sherlock Holmes dispostos a utilizarem-se de suas habilidades de observação para fazer justiça. Um dos primeiros casos conhecidos de um crime resolvido por intermédio da aplicação de um método científico ocorreu na China, no ano de 1247. Foi quando Sung Ts’u, um advogado da época, resolveu um caso de assassinato1 cuja arma do crime era uma foice de colheita de arroz, ferramenta muito comum na época, fato que dificultava o isolamento de um suspeito.

Para solucionar o enigma, Ts’u expôs as foices de todos os trabalhadores do arrozal ao ar livre e observou que apenas uma delas atraía moscas (insetos que normalmente procuram por restos mortais). O dono da ferramenta foi condenado, e nasceu aí a entomologia forense – o estudo dos insetos e seu comportamento com finalidades de fortalecimento da lei – e da ciência forense como um todo.

Afinal, o que significa “forense”?

Este termo tem como raiz etimológica a palavra fórum, no sentido de atribuir significado jurídico-legal à palavra que o acompanha. É a denominação que se dá às aplicações de diversos campos da ciência na resolução de crimes.

Além da genética forense e da entomologia forense, já mencionadas, podemos citar, por exemplo, a balística forense, ramo da física que estuda o comportamento de projéteis como balas de armas de fogo; a toxicologia forense, cuja principal finalidade é estudar a relação entre drogas e crimes; e a medicina forense, também conhecida como medicina legal, cuja aplicação mais comum é análise post-mortem com fins investigativos, que pode permitir, por exemplo, descobrir a causa e a hora da morte.

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O uso de luvas e pinças é indispensável para evitar contaminação, tanto na coleta quanto na análise. Fonte: University of South Wales

Atualmente a palavra “forense” também é utilizada por alguns laboratórios para definir amostras biológicas não-convencionais, como cabelos, unhas, sêmen e outros fluidos biológicos, mesmo quando utilizadas em casos que não necessariamente possuem conotação criminal, como investigações de vínculo de paternidade ou parentesco e casos de suspeita de infidelidade. Como amostras deste tipo são comuns no dia a dia da genética forense, vem daí a denominação.

Amostras forenses – características e limitações

Nos filmes, é comum que, com uma bituca de cigarro retirada do meio da lama numa cena de um crime que aconteceu duas semanas antes, seja possível traçar com total certeza o perfil do assassino. Porém, na vida real, nem sempre é assim tão simples. Isso porque o DNA é uma molécula frágil que, a menos que armazenada em condições especiais, pode se degradar até  um determinado ponto em que não há mais material genético suficiente para dar prosseguimento à análise.

Além disso, amostras forenses, por serem quase sempre coletadas/encontradas em condições longe das ideais, são facilmente passíveis de contaminação, o que acaba prejudicando ainda mais a análise, tanto pela dificuldade no isolamento do material genético do indivíduo quanto pela falta de certeza de que o DNA detectado é o do envolvido e não de alguém que porventura tenha manuseado a amostra.

Dentro desse contexto, como é de se esperar, cada tipo de amostra apresenta características diferentes, levando a diferentes taxas de sucesso na análise de cada uma.

Vamos ver algumas.

Cabelos

Uma das amostras forenses mais populares e comuns, devido à facilidade de coleta. Engana-se, porém, quem imagina que a obtenção de DNA a partir de fios de cabelo é simples. Isso porque, para que haja material genético na amostra, é preciso que os fios estejam com a raiz, o que exige que sejam de fato arrancados do couro cabeludo. Fios cortados não são viáveis para análise, pois a haste do cabelo, composta por queratina, não possui DNA.

Taxa de sucesso: 75%

Unhas

As unhas são pouco conhecidas como amostras forenses pela população em geral, mas são mais úteis do que o cabelo para extração de material genético. Isso porque mesmo quando cortadas (e não arrancadas), as unhas carregam consigo uma quantidade superior de DNA em comparação com os fios de cabelo, devido aos fragmentos de pele associados a elas, acarretando em maiores taxas de sucesso na análise, o que vale tanto para unhas da mão como do pé.

Unhas e cabelos costumam ser utilizados em casos de investigação de parentesco e paternidade, especialmente quando a investigação é conduzida sem o conhecimento dos doadores das amostras.

Taxa de sucesso: 90%

Preservativos

Um preservativo utilizado em uma relação sexual conterá, posteriormente, fluidos biológicos de ambos os envolvidos no ato. Estes fluidos, que podem ser sêmen, sangue ou secreção vaginal, costumam ser boas fontes de material genético, sendo a principal variável para o sucesso, nestes casos, o tempo decorrido desde a relação, bem como a forma de armazenamento e o manuseamento da amostra.

Taxa de sucesso: 81%

Roupas íntimas

Podem ser utilizadas como amostras biológicas forenses, desde que haja presença de algum fluido corporal na peça. Devido a esta limitação, a taxa de sucesso costuma ser muito variável, conforme a quantidade de fluido disponível. Vale ressaltar que tanto peças de roupa masculina quanto feminina podem ser usadas.

Roupas íntimas e preservativos podem ser utilizados como amostras genéticas forenses em casos de suspeita de violência sexual, bem como investigações de infidelidade e vínculos de parentesco (em alguns casos).

Taxa de sucesso: muito variável

Restos mortais

O período post-mortem é muito importante nas investigações forenses. Em muitos casos, mesmo passado o período da autópsia, após anos decorridos, ainda é possível extrair material genético de restos mortais oriundos de exumação, embora não seja uma tarefa fácil. Isso porque a extração de DNA de ossos é um processo custoso e altamente trabalhoso, que exige uma preparação cuidadosa das amostras e que, mesmo seguindo-se rigorosamente os protocolos estabelecidos, nem sempre é bem-sucedido.

Restos mortais de exumação são úteis em casos há muito tempo sem solução, quando já são a última fonte possível de material genético. O sucesso da análise depende essencialmente do tempo decorrido desde o falecimento do indivíduo: quanto maior, menores as chances de êxito.

Taxa de sucesso: extremamente variável

Outras amostras

Em teoria, qualquer material que tenha entrado em contato com algum fluido biológico é uma fonte potencial de DNA. Assim sendo, um chiclete mastigado, uma bituca de cigarro ou um guardanapo usado também podem conter traços de material genético útil em investigações. Na maior parte dos casos, porém, não é possível afirmar se a extração terá sucesso até o momento em que se inicia o procedimento.

Até certo tempo atrás, este campo da genética era ainda mais limitado, pois não havia técnicas capazes de amplificar a quantidade de DNA disponível em uma amostra – como o PCR, que hoje em dia é utilizado em praticamente todos os laboratórios de biologia molecular. O tempo necessário para a conclusão de análises deste tipo também vem caindo conforme avançam as tecnologias de sequenciamento e softwares necessários para a interpretação dos dados.

Você consegue imaginar algum outro tipo de amostra forense que poderia ser utilizada para investigações? Possui maiores dúvidas sobre o uso destas amostras? Se interessa por investigação criminal? Comente abaixo e vamos continuar esta conversa!

 

Referências

  1. An Early History of Forensic Entomology, 1300-1900. ThoughCo. Dez. 2018. Disponível em: https://www.thoughtco.com/forensic-entomology-early-history-1300-1901-1968325. Acesso em 01/2019.
  2. Estatísticas do nosso laboratório

Sobre o autor:Grupo Genera

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